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Reprodução em português · estudo acadêmico

O impacto da IA no mercado de trabalho brasileiro

Uma abordagem quantitativa e qualitativa dos efeitos futuros de uma tecnologia revolucionária

Randstad Research2025 · 43 páginas da publicação original

Resumo editorial

O que este estudo mostra

O relatório combina projeção setorial para a próxima década (a partir do WEF e da PNAD Contínua/CNAE) com pesquisa junto a mais de 800 profissionais brasileiros em 2025. Estima 9,7 milhões de postos passíveis de automatização, 7,1 milhões de novos empregos e efeito líquido potencial de cerca de −2,6 milhões; 27% dos respondentes já usam IA diariamente, mas 77% dos empregados não recebem formação em IA da empresa.

Estimativa central — Brasil, próxima década
IndicadorResultado
Postos passíveis de automatização9,7 milhões (9,5%)
Postos com ganho de produtividade17,3 milhões (16,9%)
Novos postos criados pela expansão da IA7,1 milhões
Efeito líquido (automatização − criação)≈ −2,6 milhões
Profissionais que usam IA diariamente (pesquisa 2025)27%
Empregados sem formação em IA na empresa77%

Valores e definições conforme a publicação original.

Texto do estudo

Introdução

A Inteligência Artificial (IA) surgiu recentemente nas economias e nos mercados de trabalho mundiais. Embora ainda esteja dando os primeiros passos no que respeita às suas aplicações profissionais e potencial, o certo é que está transformando a forma como muitos profissionais trabalham em diversos setores.

Ao mesmo tempo, está trazendo aspectos de grande relevância: o grande potencial de ganhos de eficiência; o fato de muitas empresas e trabalhadores poderem se beneficiar desta nova tecnologia, enquanto outros temem perder os seus empregos à medida que as tarefas diárias são automatizadas; além disso, há questões éticas subjacentes à sua utilização e a incerteza sobre os seus efeitos no nível econômico.

Para analisar as diferentes implicações da IA no mercado de trabalho brasileiro, a Randstad Research realizou este estudo, estruturado em três blocos: (1) introdução e contexto; (2) mercado de trabalho brasileiro e os diferentes efeitos da IA (incluindo síntese de relatórios internacionais e estimativa quantitativa nacional); (3) perspectiva dos profissionais brasileiros, com pesquisa de opinião.

Relatórios internacionais

1. A IA veio para ficar

A IA continua atraindo um volume significativo de investimento privado: o investimento em 2024 cresceu para US$ 252,3 bilhões, um aumento de 25,5%.1

2. É uma das tecnologias que mais pode transformar o mercado de trabalho

Existe consenso sobre o poder transformador da Inteligência Artificial no mercado de trabalho, mas ainda é muito cedo para determinar seu verdadeiro impacto no emprego, devido à baixa adoção e a outros fatores.2

3. Sua utilização irá acelerar a automatização de tarefas

A IA generativa acelera a automação de tarefas para reduzir custos e aumentar a produtividade. No entanto, o impacto final no emprego depende da demanda por talentos, da disponibilidade da força de trabalho e do cronograma de adoção da tecnologia. Empregos com 50% ou mais de tarefas expostas correm risco de substituição pela IA.3

4. O impacto será localizado nas tarefas com maior utilização da linguagem

Como 62% do tempo de trabalho envolve tarefas linguísticas, funções e setores podem ser classificados de acordo com o seu grau de exposição à IA.4

5. À medida que a IA é adotada, a necessidade de competências dos profissionais irá mudar

A Inteligência Artificial exigirá o desenvolvimento de novas competências, como o pensamento criativo, o analítico e habilidades específicas em tecnologia.5

6. O impacto da IA no emprego dos países pode se traduzir em um aumento da produção (PIB)

Estima-se que 18% do trabalho global possa ser automatizado pela IA, impactando mais as economias desenvolvidas. Essa automação, ao aumentar a produtividade, pode elevar o PIB mundial anual em 7%. Contudo, o impacto final dependerá da capacidade de desenvolvimento e adoção.3

7. Apesar das grandes expectativas em relação à IA, a adoção pelas empresas ainda é inicial

Segundo o IBGE, apenas 16,9% das indústrias brasileiras (com 100 ou mais empregados) adotaram soluções de Inteligência Artificial em suas operações.6 Em contrapartida, 74% das micro, pequenas e médias empresas no Brasil já integram IA de alguma forma, segundo relatório citado pela Randstad.7

8. A baixa adoção deve-se a vários obstáculos

Internamente, a maior barreira é a falta de competências e o custo. Externamente, destacam-se a falta de financiamento e as normas rigorosas de partilha de dados. As questões éticas também são um entrave transversal.8

9. Embora o uso da IA se generalize, ela levanta questões éticas e receios

A principal preocupação é a perda de emprego: 60% dos trabalhadores temem ser substituídos pela Inteligência Artificial.8

10. A regulamentação da IA, em fase inicial globalmente, é essencial para mitigar receios

No Brasil, o processo está em desenvolvimento (incluindo o Projeto de Lei 759/23 e o Projeto de Lei 2.338/2023). Outras nações (EUA, China, Reino Unido) e entidades internacionais (OCDE, UNESCO) também atuam para estabelecer um quadro regulatório para a tecnologia.

Análise quantitativa

Metodologia

O objetivo deste bloco é fazer uma estimativa quantitativa do impacto que a IA pode ter no mercado de trabalho brasileiro com um horizonte de uma década.

Como ponto de partida, o relatório toma as estimativas do World Economic Forum em Jobs of Tomorrow: Large Language Models and Jobs (setembro de 2023) sobre os efeitos esperados da IA no mercado de trabalho global, por ocupações e setores.

Com base nessa informação, e com referência à estrutura produtiva e ocupacional da economia brasileira do IBGE — usando a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE 2.0) — foi calculado o impacto no mercado de trabalho nacional. Para o emprego de 2024, usou-se a média dos dados trimestrais de ocupação da PNAD Contínua (IBGE).

Nota metodológica do relatório: para calcular o potencial da IA sobre o emprego, a projeção analisa o impacto da tecnologia de forma isolada. Isso significa que o estudo mostra o que aconteceria com o nível de emprego se a IA fosse a única variável a mudar no mercado brasileiro, ignorando fatores fiscais, econômicos ou outras tecnologias.

Quatro efeitos no mercado de trabalho

A partir da análise, o relatório classifica quatro efeitos:

Automatização. Postos de trabalho existentes em 2024 que, devido às suas características, têm alta probabilidade de deixar de ser executados por pessoas e ser substituídos pela IA. Trata-se de trabalhos em risco de automatização e que podem, potencialmente, ser destruídos.

Aumento da produtividade. Empregos atuais suscetíveis de utilizar a IA de forma complementar, elevando a produtividade dos profissionais. São empregos que não estão desaparecendo, mas sendo reforçados; em muitos casos, as competências necessárias para continuar a desempenhá-los mudarão.

Pouco ou nenhum efeito. Empregos atuais que não serão afetados nos próximos anos pela IA, porque a tecnologia não tem papel nas funções desenvolvidas, ou sua contribuição é residual.

Criação. Novos postos de trabalho (não existentes em 2024) que surgirão com a expansão da atividade empresarial das aplicações de IA. O objetivo é medir a criação que poderá compensar as perdas por automatização.

A soma dos quatro efeitos projeta o número de empregos em 2034 sob a hipótese de que a única variável a afetar o mercado seja a expansão das aplicações de IA. Não é uma estimativa do nível real de emprego no Brasil em 2034, nem contempla fatores tecnológicos não ligados à IA, questões fiscais, regulatórias ou internacionais.

Impacto agregado no emprego brasileiro

O uso de IA pelas empresas no Brasil ainda está em fase relativamente inicial, mas espera-se grande expansão da adoção na próxima década. A utilização generalizada dessa tecnologia afetará os postos existentes:

  • 9,5% dos postos atuais (9,7 milhões de empregos) poderiam ser automatizados;
  • 16,9% dos postos atuais (17,3 milhões) poderiam se beneficiar da IA para aumentar a produtividade;
  • para os empregos restantes (75,2 milhões), quase três em cada quatro, não são esperados efeitos significativos na próxima década como consequência direta da expansão da IA;
  • a expansão da IA criaria 7,1 milhões de novos postos de trabalho que não existem atualmente.

A estimativa do efeito líquido (automatização − criação) aponta para uma perda potencial de cerca de 2,6 milhões de empregos nos próximos 10 anos.

Figura: estimativa do efeito da IA sobre o emprego no Brasil. Donut com a composição dos postos existentes e barras por natureza do impacto. Fonte: elaboração própria, Randstad Research. Dados de emprego do IBGE.

Estimativa do efeito da IA sobre o emprego no Brasil — donut e barras por natureza do impacto

Tabela 1. Dados da figura — efeito da IA sobre o emprego no Brasil

Natureza do impactoPostos (volume)Participação nos empregos existentes
Emprego 2024 (base do gráfico agregado)120.200.686
Automatização−9.704.8199,5%
Criação de novos postos+7.116.343
Aumento da produtividade (postos existentes)17.311.31616,9%
Pouco ou nenhum efeito75.184.55273,6%
Efeito líquido (automatização − criação)≈ −2,6 milhões

Fonte: elaboração própria, Randstad Research. Dados de emprego do IBGE.

Nota de leitura: o relatório apresenta tanto a base de cerca de 102,2 milhões de empregados por atividade econômica (tabela setorial) quanto o total de 120,2 milhões no gráfico agregado do emprego 2024. Os percentuais de 9,5% / 16,9% / 73,6% e os volumes de automatização, produtividade e “sem impacto” são os do recorte setorial totalizado em 102,2 milhões; o efeito líquido de cerca de 2,6 milhões corresponde a 9,7 milhões de postos em risco de automatização menos 7,1 milhões de criação.

Setores com maior impacto absoluto

A expansão da IA nos processos produtivos trará mudanças substanciais no emprego na maioria dos setores, com os quatro efeitos atuando com maior ou menor intensidade. Dependendo do setor, o efeito líquido resultará em aumento ou diminuição do emprego.

O comércio e reparação de veículos é o setor com maior impacto absoluto, com risco de automação de mais de 2,5 milhões de postos. Com saldo líquido negativo de 968,4 mil empregos, lidera a perda esperada de vagas em função da IA, seguido pelas atividades administrativas (perda líquida de 787,3 mil).

No extremo oposto, o setor de tecnologia da informação deve criar a maior quantidade líquida de postos: mais de 403,9 mil novas vagas, com saldo líquido positivo de aproximadamente 190,7 mil postos.

Figura: efeito da IA sobre o emprego existente em setores selecionados. Volumes de automatização, criação e produtividade. Fonte: elaboração própria, Randstad Research.

Efeito da IA sobre o emprego existente em alguns setores no Brasil

Tabela 2. Dados da figura — impacto absoluto em setores selecionados

SetorAutomatizaçãoCriaçãoProdutividade
Comércio e serviços / reparação de veículos2.517.8211.549.4282.905.178
Atividades administrativas926.170138.9261.389.255
Indústria — manufatura703.298562.639703.298
Transporte, armazenagem e correio694.050462.7001.041.074
Hotelaria e alimentação668.433334.216891.243
Educação632.632702.9251.687.020
Indústria alimentícia, calçados e têxtil521.382426.586710.976
Atividades profissionais, científicas e técnicas413.946579.5251.324.627
Construção377.922151.169680.259
Saúde humana e serviços sociais310.922496.9381.552.932

Fonte: elaboração própria, Randstad Research.

Setores com maior potencial percentual de automatização

Os setores que mais utilizarão a IA na próxima década serão, em geral, aqueles com maior proporção de processos de produção automatizáveis. No topo: atividades administrativas (20%), tecnologia da informação (19%) e telecomunicações (18%).

Figura: setores com maior potencial de automatização impulsionada por IA. Fonte: elaboração própria, Randstad Research.

Setores com maior potencial de automatização impulsionada por IA

Tabela 3. Dados da figura — potencial de automatização por setor

SetorPotencial de automatização
Atividades administrativas20%
Tecnologia da informação19%
Telecomunicações18%
Atividades financeiras16%
Imprensa, produção de vídeo, TV e rádio16%
Atividades imobiliárias15%
Seguros e previdência15%
Comércio e serviços13%
Hotelaria e alimentação12%
Transporte, armazenagem e correio12%

Fonte: elaboração própria, Randstad Research.

Setores com maior potencial de criação de novos empregos

A IA não apenas impactará ocupações existentes por meio da automatização: também atuará como motor de criação de postos que sequer existem atualmente. Os ganhos de eficiência, junto com novas indústrias, serviços e modelos de negócio, impulsionarão a demanda por profissionais com habilidades inéditas. A magnitude desse efeito será desigual entre setores.

Os maiores efeitos percentuais: tecnologia da informação (36%), telecomunicações (25%) e imprensa, produção de vídeo, TV e rádio (18%). Até dez setores experimentariam o surgimento de novas ocupações a uma taxa média de cerca de 15% do tamanho atual.

Figura: setores com maior potencial de criação de novos empregos. Fonte: elaboração própria, Randstad Research.

Setores com maior potencial de criação de novos empregos

Tabela 4. Dados da figura — potencial de criação de novos empregos

SetorCriação relativa ao tamanho atual
Tecnologia da informação36%
Telecomunicações25%
Imprensa, produção de vídeo, TV e rádio18%
Atividades financeiras16%
Atividades profissionais, científicas e técnicas14%
Educação10%
Atividades imobiliárias10%
Seguros e previdência10%
Eletricidade e gás9%
Indústria alimentar, têxtil e de calçados9%

Fonte: elaboração própria, Randstad Research.

Setores com maior potencial de aumento da produtividade

A utilização da IA no trabalho impulsionará o aumento da produtividade em vários setores, com projeções que superam 30% em alguns casos. Tecnologia da informação lidera (40%), seguida de imprensa/audiovisual (38%) e seguros (37%).

Figura: setores com maior potencial de aumento da produtividade. Fonte: elaboração própria, Randstad Research.

Setores com maior potencial de aumento da produtividade

Tabela 5. Dados da figura — potencial de aumento da produtividade

SetorAumento de produtividade projetado
Tecnologia da informação40%
Imprensa, produção de vídeo, TV e rádio38%
Seguros e previdência37%
Atividades financeiras36%
Atividades profissionais, científicas e técnicas32%
Atividades administrativas30%
Telecomunicações27%
Saúde humana e serviços sociais25%
Atividades imobiliárias25%
Educação24%

Fonte: elaboração própria, Randstad Research.

Setores pouco impactados

Embora a IA prometa transformar o mercado de trabalho, o impacto será residual em áreas específicas da economia. Atividades do setor primário, indústrias extrativas e construção concentram a maior parcela de empregos com pouco ou nenhum efeito.

Figura: setores com menor potencial de efeito da IA sobre o emprego. Percentual de postos com pouco ou nenhum impacto. Fonte: elaboração própria, Randstad Research.

Setores com menor potencial de efeito da IA sobre o emprego

Tabela 6. Dados da figura — setores com pouco ou nenhum efeito da IA

SetorEmpregos com pouco ou nenhum efeito
Agricultura, produção animal, caça, floresta e pesca92%
Atividades de organizações associativas88%
Indústrias extrativas88%
Construção86%
Administração pública, defesa e seguridade social82%
Serviços domésticos81%
Água, esgoto, gestão de resíduos e descontaminação81%
Comércio e serviços80%
Indústria — manufatura79%
Eletricidade e gás77%

Fonte: elaboração própria, Randstad Research.

Setores com atividades predominantemente manuais, percepção em ambientes não estruturados, forte interação humana ou decisão contextual complexa tendem a ser menos suscetíveis à substituição ou transformação pela IA na próxima década.

Tabela setorial completa (emprego 2024 e efeitos)

Apesar de 9,7 milhões de postos serem passíveis de automação, a IA pode impulsionar a criação de 7,1 milhões de novos empregos. Dos 102,2 milhões de empregados no recorte setorial de 2024, 9,7 milhões estariam suscetíveis à automação; 16,8 milhões poderiam se beneficiar da IA para produtividade; e a economia mais produtiva geraria 7,1 milhões de novos postos.

Tabela 7. Empregados por atividade econômica e efeitos estimados da IA

Atividade econômica2024AutomatizaçãoCriaçãoProdutividadeSem efeito
Agricultura e produção animal7.948.012238.44079.480397.4017.312.171
Indústrias extrativas572.21434.33311.44434.333503.548
Indústria alimentar, têxtil e de calçados4.739.845521.383426.586710.9773.507.485
Indústria transformadora7.032.984703.298562.639703.2985.626.387
Eletricidade e gás269.39826.94024.24629.634212.824
Água, esgoto e gestão de resíduos492.40239.39239.39249.240403.769
Construção7.558.436377.922151.169680.2596.500.255
Comércio e reparação de veículos19.367.8532.517.8211.549.4282.905.17813.944.854
Transportes, armazenagem e correio5.783.748694.050462.7001.041.0754.048.623
Hospedagem e alimentação5.570.274668.433334.216891.2444.010.597
Imprensa, prod. de vídeo, TV e rádio241.06138.57043.39191.603110.888
Telecomunicações487.17987.692121.795131.538267.948
Tecnologia da informação1.122.025213.185403.929448.810460.030
Atividades financeiras1.036.897165.903114.059373.283497.710
Seguros, previdência e auxiliares544.85181.72854.485201.595261.529
Atividades imobiliárias727.943109.19172.794181.986436.766
Atividades profissionais, científicas e técnicas4.139.461413.946579.5251.324.6282.400.888
Atividades administrativas4.630.851926.170138.9261.389.2552.315.426
Administração pública, defesa e seguridade social5.199.312103.986155.979831.8904.263.436
Educação7.029.250632.632702.9251.687.0204.709.597
Saúde humana e serviços sociais6.211.728310.586496.9381.552.9324.348.210
Arte, cultura, esporte e recreação1.203.332108.30096.267240.666854.366
Atividades de organizações associativas519.06910.3815.19151.907456.781
Serviços domésticos5.931.595296.580296.580593.1595.041.856
Organismos internacionais7.0775665661.6284.883
Outros serviços3.833.894383.389191.695766.7792.683.726
Total102.200.6879.704.8197.116.34317.311.31675.184.552

Fonte: elaboração própria, Randstad Research. Dados de emprego do IBGE.

Análise qualitativa

Pesquisa com profissionais brasileiros

A utilização da IA para fins produtivos já é uma realidade para empresas e profissionais no Brasil. Mesmo sendo algo recente no contexto nacional — com utilização ainda moderada em tipo de funções e em número de empresas e profissionais — a tecnologia já faz parte do conjunto com grande potencial futuro.

Por essa razão, a Randstad Research realizou uma pesquisa no primeiro semestre de 2025 para abordar qualitativamente aspectos de interesse relacionados com a IA envolvendo empresas e profissionais no Brasil.

Para complementar a análise quantitativa, o bloco qualitativo foca a perspectiva de mais de 800 profissionais brasileiros (empregados e desempregados). O objetivo foi captar percepções, expectativas e preocupações em relação à Inteligência Artificial no mercado de trabalho. Os aspectos essenciais do questionário foram:

  • Utilização da IA: grau de uso nas funções atuais e no processo de busca de emprego.
  • Percepções e expectativas: impacto na empregabilidade, competências e salários.
  • Preocupações: receios de substituição e perda de emprego.

Amostra

Entre os respondentes, 53% se identificaram como mulheres e 47% como homens. A escolaridade concentra-se no ensino médio (cerca de 67% da base apresentada no relatório), com parcelas menores de ensino fundamental, bacharelado, licenciatura e mestrado.

Quanto ao status profissional: 62% estavam empregados e sem intenção de mudança; 17% empregados mas dispostos a ouvir ofertas; 13% empregados e ativamente à procura de novo desafio; 7% desempregados e ativamente à procura; 1% sem trabalho e sem procura. Entre os empregados, 61% não ocupavam cargo de liderança; 24% tinham liderança sem gerir equipes; 15% tinham liderança e geriam equipes.

Fonte: Randstad Research. Base: todos os profissionais (e empregados, conforme o recorte).

Uso da IA no trabalho

Um em cada quatro profissionais já utiliza IA no trabalho diário. Metade dos profissionais entrevistados afirma utilizar a IA de alguma forma na empresa. Mais de um em cada quatro (27%) já usa a IA no trabalho diário; outros 18,9% interagem com ela de outras formas. Ainda assim, 25,5% relatam que a IA não é utilizada na empresa, e 12,2% não sabem qual é o nível de utilização na organização.

Figura: interação com a IA em contexto profissional. Fonte: Randstad Research. Base: profissionais empregados.

Interação com a IA no trabalho diário e nas empresas

Tabela 8. Dados da figura — interação com a IA no trabalho

SituaçãoPercentual
Utilizo a IA no meu trabalho diariamente27,0%
Interajo com a IA de outras formas18,9%
Os colaboradores sob minha responsabilidade utilizam a IA3,1%
Desenvolvo aplicações de IA1,0%
As tecnologias de IA não são utilizadas na minha empresa25,5%
Não tenho qualquer interação com IA no trabalho12,2%
Não sei12,2%

Fonte: Randstad Research. Base: profissionais empregados. Cinquenta por cento dos profissionais usam a IA de alguma forma no âmbito profissional (soma das formas de uso ativo).

Formação em IA nas empresas

Apesar do uso crescente, a maioria dos profissionais ainda não recebeu formação relacionada à IA na empresa. 77% dos profissionais empregados afirmam que a empresa não oferece esse tipo de formação; apenas 23% têm acesso a treinamento em IA.

Há desconexão entre oferta de formação e interesse: 70,7% ainda não estão se formando, mas gostariam; 16,9% já estão se formando; 9,2% consideram a formação indiferente para a profissão; 3,2% não acreditam nos benefícios da utilização da IA.

Figura: formação em IA na empresa e interesse dos profissionais. Fonte: Randstad Research. Base: profissionais empregados / todos os profissionais.

Formação relacionada à IA na empresa e desejo de desenvolver competências

Tabela 9. Dados da figura — formação e interesse em competências de IA

IndicadorResultado
Empresa oferece formação em IA (sim)23%
Empresa não oferece formação em IA (não)77%
Já estou fazendo formação relacionada à IA16,9%
Ainda não estou fazendo, mas gostaria70,7%
Para a minha profissão é indiferente9,2%
Não acredito nos benefícios da utilização da IA3,2%

Fonte: Randstad Research. Oferta de formação: base profissionais empregados. Interesse em formação: base todos os profissionais.

Percepções de quem usa IA

Entre profissionais que utilizam a IA, a percepção é mais positiva do que negativa. A mais consensual é o aumento de produtividade (47,9% de concordância parcial + total). A IA também é vista como ferramenta que torna o trabalho mais divertido e que ajuda a tomar decisões melhores e mais rápidas.

Há menos consenso sobre redução de riscos no trabalho e sobre mudança radical na forma de trabalhar.

Figura: influência da IA utilizada na empresa. Escala de concordância em produtividade, riscos, ambiente, decisões e mudança de forma de trabalhar. Fonte: Randstad Research. Base: profissionais que utilizam IA.

Influência da IA utilizada na empresa — escala de concordância

Tabela 10. Dados da figura — influência da IA no trabalho (escala completa)

A IA…Concordo parcialmenteConcordo totalmenteDiscordo parcialmenteDiscordo totalmenteNeutro
Aumentou a minha produtividade25,3%22,6%15,1%16,4%20,5%
Reduziu os riscos que corro no meu trabalho19,9%12,3%17,1%24,7%26,0%
Melhorou o ambiente de trabalho na minha empresa e equipe18,5%13,0%20,5%19,9%28,1%
Tornou o meu trabalho mais divertido26,0%15,8%17,8%17,1%23,3%
Mudou radicalmente a minha forma de trabalhar24,0%13,0%17,1%22,6%23,3%
Me ajuda a tomar melhores decisões26,7%18,5%19,9%15,8%19,2%
Permite que eu tome decisões mais rapidamente24,7%20,5%19,2%18,5%17,1%

Fonte: Randstad Research. Base: profissionais que utilizam IA.

Desempregados e busca por emprego

Uma parte considerável dos profissionais desempregados acredita que a IA pode ser útil na busca por emprego, mas ainda menos na preparação para entrevistas:

  • 51,7% consideram a IA valiosa na busca por emprego;
  • 47,4% acreditam que a tecnologia pode ajudá-los a assumir novas funções;
  • 56,3% discordam totalmente que a IA tenha tido influência direta na perda do emprego;
  • 45,9% discordam que a IA os tenha ajudado na construção do currículo ou na preparação para entrevistas.

Salários em cinco anos

Há grande incerteza e visão cautelosa sobre o impacto da IA nos salários no horizonte de cinco anos. Predominam expectativas de estabilidade: 37% para o próprio salário, 40,9% para o salário médio da empresa e 38% para o do setor. Apenas cerca de 25% a 29% esperam aumento, conforme o nível. Aproximadamente 22% a 23% não sabem qual será o impacto.

Figura: efeito esperado da utilização progressiva da IA nos salários em 5 anos. Estável, diminuição, aumento e incerteza — para o próprio salário, o da empresa e o do setor. Fonte: Randstad Research. Base: todos os profissionais.

Efeito esperado da IA nos salários em 5 anos — barras empilhadas

Tabela 11. Dados da figura — efeito esperado da IA nos salários em 5 anos

RecorteContinuará estávelDiminuirá com a IAAumentará com a IANão sei
Em relação ao próprio salário37,0%11,5%29,4%22,1%
Em relação ao salário médio da empresa40,9%10,5%25,2%23,4%
Em relação ao salário médio do setor38,0%11,3%28,3%22,5%

Fonte: Randstad Research. Base: todos os profissionais.

Preocupação com perda de emprego

A preocupação com perda de emprego devido à IA aumenta conforme se alonga o horizonte. No curto prazo, 45,8% estão muito ou um pouco preocupados; em 10 anos, a preocupação atinge 54,4%.

Figura: preocupação com perda de emprego por adoção de IA. Horizontes de 1, 5 e 10 anos. Fonte: Randstad Research. Base: todos os profissionais.

Preocupação com perda de emprego devido à IA no horizonte de 1, 5 e 10 anos

Tabela 12. Dados da figura — preocupação com perda de emprego

HorizonteMuito preocupadoUm pouco preocupadoNada preocupadoNão sei
No próximo ano13,2%32,6%44,1%10,1%
Nos próximos 5 anos19,9%34,9%33,5%11,6%
Nos próximos 10 anos26,7%27,7%31,1%14,5%

Fonte: Randstad Research. Base: todos os profissionais.

Dificuldade de encontrar emprego no futuro

Quatro em cada dez profissionais estão muito preocupados com a dificuldade de encontrar emprego na próxima década. A preocupação cresce com o horizonte: 55,5% no próximo ano; 63,4% em 5 anos; 65,1% em 10 anos (muito + um pouco preocupados).

Figura: preocupação com dificuldade de encontrar emprego no futuro. Fonte: Randstad Research. Base: todos os profissionais.

Preocupação com dificuldade de encontrar emprego no futuro devido à IA

Tabela 13. Dados da figura — dificuldade de encontrar emprego no futuro

HorizonteMuito preocupadoUm pouco preocupadoNada preocupadoNão sei
No próximo ano19,4%36,1%36,8%7,7%
Nos próximos 5 anos25,4%38,0%27,4%9,2%
Nos próximos 10 anos32,0%33,1%23,5%11,4%

Fonte: Randstad Research. Base: todos os profissionais.

Competências

53% dos profissionais acreditam que precisam desenvolver competências relacionadas à IA para melhorar a empregabilidade. Apesar de 58,8% discordarem que a IA reduz o valor de suas competências atuais, apenas 34,9% afirmam ter habilidades específicas ligadas a essa tecnologia. 46% veem a IA como complemento às competências atuais.

Figura: efeito da IA nas competências. Escala de concordância. Fonte: Randstad Research. Base: todos os profissionais.

Efeito da IA nas competências profissionais — escala de concordância

Tabela 14. Dados da figura — efeito da IA nas competências (escala completa)

AfirmaçãoConcordo parcialmenteConcordo totalmenteDiscordo parcialmenteDiscordo totalmenteNeutro
A IA reduz o valor de algumas das minhas competências14,2%5,9%28,1%30,7%21,1%
Tenho competências específicas ligadas à IA22,6%12,3%21,7%21,5%21,9%
Preciso desenvolver competências em IA para a empregabilidade19,8%33,2%17,4%16,4%13,2%
A IA complementa as minhas competências25,8%20,2%20,3%16,4%17,3%

Fonte: Randstad Research. Base: todos os profissionais.

Como lidar com a mudança

O relatório fecha com três mensagens de enquadramento:

Déficit estrutural e falha de habilidades. O maior risco à IA não é a tecnologia, mas a estrutura. O Workpulse 2025 da Randstad conclui que o déficit estrutural é o principal entrave para a inovação, usando como evidência este relatório: 77% dos profissionais empregados não recebem treinamento em IA das empresas.

Liderança como mediação e amplificação da IA. O sucesso exige que o líder abandone o modelo de comando e controle para se tornar mediador entre pessoas e sistemas — priorizando agilidade, sabendo onde a IA amplifica o potencial e onde a intuição humana é insubstituível.

Viabilidade e criação de valor. A análise quantitativa (isolada para medir o potencial) confirma a IA como motor de crescimento: a tecnologia pode criar 7,1 milhões de novos empregos e amplificar a produtividade, reforçando que o talento é o catalisador final da viabilidade.

Créditos e fonte oficial

Como citar (editorial Profissões.org.br): Randstad Research (2025). O impacto da IA no mercado de trabalho brasileiro. Randstad Brasil. Disponível em o PDF oficial acima.

Aviso de créditos: este material é de autoria da Randstad Research. A página em Profissões.org.br não substitui a publicação oficial; serve à leitura web, à citação rastreável e ao contexto brasileiro de ocupações. Direitos autorais e interpretação metodológica permanecem com a fonte primária.